
os pássaros vêm a galope do esquecimento
e são eles
os resgatados desse grito
desta destreza aprisionada
no brando desta página
solidão
foto: autor desconhecido
sábado, 22 de Agosto de 2009

não pude perceber o litoral
durante o que eu imaginava daquilo que era o silêncio.
como ocupando uma cadeira
topei entre vagos destinos
igual a esses rios
que caem junto com a chegada do outono.
comecei acreditar
que ter nascido do tamanho errado
me bastaria andar
sem atalhos que fossem
andar
de pernas às esquecidas
tamanho calo que herda até o fim seu espaço.
era indiferente a solidão
que continham meus ossos acesos
era desnecessário existir
e usar de um outro lugar
que não coubesse no mundo.
daquilo sentirei infelicidade...
e de parte do meu corpo
rumo a imaginá-lo
como corpo restante de um frenesi
tornei-me como sacrifício de sonhar
em outros sonhos uma viagem.
esperei no dia
cada porto
cada miragem de conforto
que me deixasse como o vento...
...despercebido da solidão
era exposto.
o céu ardia tanto
restando-se sob o sol desse outono
que nu e anônimo
de minhas mãos
o aceno se derramava...
eu não tive de onde tirar uma lágrima.
era ferrugem.
obra: sapatos de van gogh, van gogh
segunda-feira, 1 de Junho de 2009

a luz listrada acende o mofo que ilustra a vida no estreito da cama
minha mãe atravessa a morte sem fazer barulho
me assusto com o copo d'água
pousa uma gaivota em meus lábios se afogando
a morte surge sempre suave para os mortos
deus não haverá de conceber a saudade ao mar
só aos que ficarão
pois estes não têm barcos nem são deuses
mas
suficientemente estúpidos como o céu de pessoa
a persiana retém os desfiladeiros neste cômodo
o que escrevo desaparece com a noite
fica na memória o eco
fragmentando o pouco do café
os vendavais precisam das chuvas
para que as horas revelem às montanhas
o suicídio que as habita
já não atento migrar para o imenso da areia
(tudo é indefinido até a hora das ondas)
este poema estará incluso na I antologia literária cidade organizada pelo poeta abilio pacheco. o lançamento ocorrerá em setembro.
foto: arquivo pessoal
Há poemas que não deveriam ser escritos, que deveriam ficar ali - não sei aonde, bem quietinhos, guardados, e - só quando fosse muito necessário, afluiriam para nos consolar e comover. "Morada", de Andreev Veiga, é um desses poemas. E mais: poema que não tem fim, porque comporta múltiplas possibilidades de fim e começos. Ando por ele, percorro seus labirintos de silêncio, voz que não se repete, posto que ímpar, âmbar, misturado, enfim... há poemas inexplicáveis cuja construão, humana, confunde-nos, para - depois, nos apascentar, abrigar, até que o mundo se acorde, quando, então, não haverá mais os acordes dessa canção. Obrigado, e parabéns.
Américo Leal - Escritor - Paragominas (PA) · 19/9/2009

para a gena
na morada desse silêncio
num presente que chega com o verão
e estende seu instrumento na areia
a voz que é muda
me é sempre a outra
que à beira da voz e abismo
no fundo silêncio-amalgamado
distrai tuas nadadeiras
com o áspero sal do meu amor
este poema estará incluso na I antologia literária cidade organizada pelo poeta abilio pacheco.
obra: paranoiac-visage, dalí
à beira do medo
me agarro sobre a guimba do cigarro
instintos quentes
e lábios debruçados no pão
se abrem como uma vagina ao vácuo
penetrada
pelo sopro diurno
da colisão com a vida
ao norte
ouço o lugar perdendo altura
numa imagem indecifrável de fogo
correndo sobre mim,
até a boca
o mundo ainda esconde muitas águas
entre os gestos das flores
e entre as coisas que se tem
apesar de tanto
antigas e comuns
o tempo não pode curar
a altura da queda
o perfume desses verões
a bebida derramada sobre o mundo
pesa mais que o cheiro deste lugar
(não é só de silêncio que é feito o desejo)
é de sangue
é de algo maior que este pátio
é de borra na cabeceira
com seus ombros em silêncio.
a sanidade.
quando a ópera resvala nos galhos
e as folhas em coro
pronunciam-se livres para a noite
quando o presente abre sua porta
e deixa o vento fazer-se disposto
no rosto
quando cada botão
em seu tempo se abre
fumegando
por dentro
a tristeza
o verão
a noite
toma-me inerte
à posse desses rios
que flutuam inescrupulosos
sob a mínima distância
de miséria e poema
o peso dos disfarces
à medida em que tudo se perpetua
evapora os olhares
e as coisas se distanciam
(é um ato capaz)
a vida se torna um alvo fácil
a pulsar
sozinha entre as folhas
a ópera acabou,
inteira
derramada sobre a noite
dormindo o mundo
lado-a-lado
com o medo
não é a solidão que abandona,
é o caminho.
o tempo a casa a beleza dos quintais
achei que a vida
fosse um grito
que começassem em luz
onde eu pudesse descobrir
todas as manhãs
que minha voz não existe
ou é uma outra cor
sem o gosto das palavras
sem o instante do abraço
apenas água
o verão termina
e junto vão-se os pássaros
e as longas caminhadas pela ilha
o único minuto deixado
descreve o que as ondas tem em excitação com o homem:
o vento
que descampado pela madrugada
toma rumo ao desconhecido
passo-a-passo
pelos saguões de meus limites
sento à sombra
gargarejo qualquer coisa inofensiva para mais tarde...
a manhã
num aquário seguinte
o frio se desfaz
e o silêncio se acende imponderável entre as nuvens
o galo canta
e mergulha em cânticos às margens deste rodeio
se num intervalo de vida
pudesse envelhecer mais rápido que a fadiga
como homem
de minha própria fome e carniça
falaria para o coração
o que de mortos e vivos aprendi
mas que de mortos e vivos
hei de adiar
ante
a exata ocupação do dia
ou
tarde demais...
...até a primeira enchente
escorrer suas guimbas pelo chão.
este poema é parte integrante da antologia poética do 9º concurso de poesias da universidade federal de São João Del-Rei - UFSJ 2009 no estado de minas gerais.
obra: flor de amendoeira, van gogh
enquanto o sulco
derramava pela última vez
deixando escorrer o enxofre pela casa
o armário era esvaziado
e desencontrava no vazio
com seu próprio semblante
enquanto o leito confundia-se ao espírito
e a oração inebriava a madrugada
com seu luto
mais um café era servido
e sem a intenção
de reinventar a vida
- com tantos outros assuntos –
a morte era esquecida
este poema é parte integrante da IV antologia poética valdeck almeida de jesus 2009. a antologia terá lançamento no dia 19 de setembro de 2009, sábado, às 16 horas, no Estande da Giz Editorial: Entre as ruas C e D, no Pavilhão Laranja da Bienal Internacional do Rio de Janeiro, no Rio centro e já pode ser encontrado no site da giz editorial através do endereço: www.gizeditorial.com.br
tela: perverso devaneio, nelson magalhaes filho
